Gagacabana: o que Lady Gaga nos mostrou sobre aceitação das próprias sombras

Em maio, o novo espetáculo de Lady Gaga levou milhões às ruas do Rio de Janeiro e emocionou milhares de espectadores em casa. Toda essa comoção revela, por um lado, o valor da arte e alegria na promoção de saúde e bem-estar para a população e a importância desses momentos serem subsidiados pelo estado. Por outro lado, quem observa os detalhes percebe que esse espetáculo só teve tanto impacto porque nasceu da transformação da dor de quem sofre. O êxtase da arte, da dança e da celebração só foi possível porque Lady Gaga e o povo brasileiro tiveram a chance de transformar sua dor em força — ali mesmo, na praia de Copacabana — e fazer dela uma plataforma para continuar vivendo.
A história contada no palco, por meio de letras, sons, danças, figurinos e emoção, é uma alegoria perfeita do processo de transformação que ocorre na terapia. Lady Gaga faz referências a momentos marcantes da própria carreira, quando foi amplamente celebrada, mas precisou suavizar e conter sua essência para ser aceita. Foi amada, mas a que custo? Em cena, uma parte de si, representada pela dama de vermelho, surge para dizer: “o caos no seu coração jamais irá morrer”. Ela traz um aviso: você pode conter quem é para agradar, e o preço será a dor. E isso é ao mesmo tempo um convite: deixe que ela te mostre até onde você pode ir. Quantas pessoas não vivem isso todos os dias? Quantas não ignoram sentimentos e pensamentos que poderiam mudar suas vidas apenas porque, aos olhos do mundo, tudo parece ótimo?
Ela expressa sua dor em letras e elementos visuais góticos — com caveiras, morcegos, membros quebrados e a morte simbólica do próprio eu. E depois mostra como reconhecer essa dor e aceitar o caos que sentimentos de inadequação podem causar pode levar à transformação. É nesse momento que surge a necessidade de mudar, de se expor, de integrar esses sentimentos à vida. Ela renasce. Passa por uma cirurgia em pleno palco. Dança com as caveiras. Está rasgada, remendada — e ainda assim, brilha.
Ao reconhecer sua dor, ela consegue incluir sua verdadeira face na própria vida. Os sentimentos negativos não definem sua existência, mas mostram que é preciso resistir às expectativas externas. Mostrar o lado sombrio e monstruoso é a única forma legítima de existir.
Essa mensagem se torna ainda mais poderosa ao ser vivida publicamente, numa praia brasileira, em um show gratuito. Se formou ali um espaço democrático, acessível a todos, incluindo aqueles que normalmente não conseguiriam estar presentes, num país onde os índices de violência contra minorias são alarmantes. Pessoas que sofrem diariamente por serem apagadas e oprimidas em sua diversidade reconheceram em Lady Gaga a sua própria dor, mas também a possibilidade de transformação e beleza que existe ao aceitá-la. A alegria coletiva vivida no Gagacabana foi, na verdade, a alegria de perceber que sim — há vida depois da dor. E ela é linda em toda sua plenitude.


